O peso da história e o silêncio que persiste — Falar é cuidar

Dra. Marta Sardinha

Saúde pélvica e menstrual: por que falar sobre o corpo feminino é um ato de prevenção e liberdade.

O peso da história e o silêncio que persiste

Durante séculos, a menstruação e o corpo feminino foram envolvidos em mitos, vergonha e silêncio.
Desde as mulheres serem consideradas impuras durante o período menstrual, até à normalização de dores ou sintomas como perdas de urina, as mulheres aprenderam a aceitar sintomas como parte inevitável da vida.
Mas comum não é o mesmo que normal. Não é normal ter dor. Não é normal ter perdas de urina. E é possível prevenir e tratar estas situações com acompanhamento especializado.

Hoje, apesar de vivermos numa era de informação, muitas mulheres ainda chegam à consulta sem saber o que é o pavimento pélvico, ou sem nunca terem observado a sua vulva. Algumas acreditam que urinam pelo mesmo orifício por onde menstruam. Outras adaptam a vida à disfunção: evitam sair de casa com medo da urgência urinária, limitam atividades, ou vivem com dor, em silêncio.

O silêncio prejudica.
Quanto mais tempo se adia a procura de ajuda, mais complexos se tornam os problemas. E mais se perpetua a ideia de que sentir desconforto é “normal”.

Falar é cuidar

A Fisioterapia Pélvica surge como uma ponte entre o problema e a solução.
Através de uma avaliação individualizada, exercícios de reeducação, treino muscular e educação sobre o corpo, é possível prevenir complicações, recuperar função e devolver autonomia e confiança à mulher.

Esta especialidade não é apenas para quem tem sintomas — é também para quem quer prevenir e viver com qualidade.
Uma adolescente não deve sofrer com dores incapacitantes todos os meses.
Uma mãe não precisa aceitar as perdas de urina como consequência inevitável do parto.
Uma avó não deve deixar de brincar com o neto por medo da urgência urinária.

Cuidar da saúde pélvica é cuidar da liberdade de viver plenamente em qualquer idade.

Como manter a saúde pélvica e menstrual

A manutenção da saúde pélvica e do bem-estar menstrual não se resume a fazer exercícios. É sobre cuidar do corpo de forma integrada:

Realizar avaliações regulares com um(a) médico ginecologista e um(a) fisioterapeuta pélvico, mesmo sem sintomas.

Praticar exercício físico adaptado ás diferentes fases do ciclo — lembrando que o pavimento pélvico trabalha em conjunto com os restantes músculos do corpo.

Respeitar o ciclo menstrual — descansar quando o corpo pede, e não o forçar a um ritmo que não acompanha as suas fases.

Cultivar hábitos saudáveis, como não adiar as idas ao WC e evitar fazer força para evacuar.

Ter uma boa saúde intestinal através de uma alimentação equilibrada e adequada ingestão hídrica.

E, acima de tudo, ouvir o corpo. Ele fala connosco — através do ciclo, dos nossos níveis de energia, da dor e do bem-estar.

Um ato de amor-próprio

Falar sobre saúde pélvica e menstruação é um ato de coragem e amor-próprio.
É assumir o corpo como território de cuidado, não de vergonha.
Quando uma mulher conhece o seu corpo, entende o seu ciclo e cuida da sua pélvis, ganha mais do que saúde — ganha autonomia, prazer, confiança e liberdade.

A saúde pélvica não deve ser motivo de sussurro, mas de orgulho e cuidado.
Porque cada conversa aberta, cada partilha e cada passo em direção ao autoconhecimento são formas de quebrar o tabu e de reescrever a forma como olhamos para o corpo feminino.

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